sexta-feira, março 30, 2007

A informação e a condição humana

“If people really knew [the truth], the war would be stopped tomorrow. But of course they don’t know, and can’t know.” (David Lloyd George, acerca da Primeira Guerra Mundial).

Existe uma mudança no pragmatismo da Educação nas sociedades que vivem a pós-modernidade. Esta mudança ocorre graças ao novo sistema empregado na programação das personalidades individuais e é possível confrontá-la com sua antecessora - e é isto que se vai tentar fazer neste post.

Há 50 anos atrás, as pessoas eram programadas em escolas, basicamente por meio do modelo hierarquicamente organizado "professor-alunos", no qual a comunicação se dava, principalmente, por meio da experiência áudio-táctil e concreta, mediante um sistema de ensino planejado e centralizado; a verbalização e a linguagem escrita eram condicionantes do processo de aprendizado e, desta forma, o único caminho à perpetuação da História/modelo social.


Com o advento da mídia televisiva, surgem revolucionários métodos de aprendizagem (direta ou indireta) e o aprimoramento de técnicas de condicionamento comportamental orientado a objetivos - públicos ou privados -, que se mostrou eficaz no aprimoramento dos sistemas de controle social e econômicos - quer se esteja a falar de sistemas democráticos ou não.

De passagem, a pretexto de falar de sistemas de governo democráticos, diga-se que à democracia só importa o exercício da escolha política, ficando a informação hegemônica (ideologia) condicionada à escolha da maioria - o quê, por si só, converte-se numa ditadura da maioria.

O que pretendo comentar é: esta continuidade nos avanços dos meios de comunicação, por via da tecnologia, traz consigo novos tipos de opressão e controle sociais que, sendo subliminares ou explícitos, transformam a condição humana e abalam profundamente as estruturas psicossociais de uma sociedade.

Agora, neste momento, a mensagem aqui exposta ainda está vinculada à forma de comunicação que pertence a um período em vias de extinção/transformação: ela é puramente escrita (porque assim decidi quando a formulei). Mas a mídia, a comunicação de massa continua a exercer um papel importantíssimo na construção/desconstrução das realidades humanas: provoca mudanças nos meios de produção, nas estruturas familiares, na organização e hierarquia social, nas procuras por bens de valor econômico/simbólico, propagam informações de natureza política, jurídica, religiosa e/ou moral e assim por diante.

Acima, de forma abrupta, considerei irrelevante o universo de referência do leitor (quem quer que seja), sem preocupação se seu intelecto será capaz de analisar o meu objetivo quando continuo a descrever brevemente o advento da Internet como ferramenta de programação/condicionamento dos comportamentos sociais e coletivos humanos. Faço isso porque imagino que, com um pouco de paciência e perseverança, o incauto leitor poderá fazer uma pesquisa nos mecanismos de procura (Cadê, Sapo, Google, Yahoo e etc.) e, quase sem nenhum esforço, observar a íngreme escala do avanço tecnológico da Sociedade Informática: de 1992 (ano da Internet comercial) aos dias de hoje, um avanço repentino à escala global sugere que os indivíduos podem programar-se a si mesmos.

Num ambiente que parece caótico e cresce sem nenhum controle aparente, as informações fluem à medida dos cliques do "mouse" - termo que, por si, já dá espaço para metáforas as mais variadas. Entretanto, aquilo que não se disse nas linhas anteriores é que este "surf virtual" é, de longe, uma das ferramentas mais bem elaboradas de exame de conteúdos de informação e que, se bem utilizada, pode acarretar em ferramentas de controle mais que eficientes. Embora possa autoprogramar-se, o internauta deixa rastros (ver cookies) e fornece aos proprietários de websites estatísticas precisas sobre o conteúdo acessado, seja por região do país/globo, seja por conteúdo escolhido e, principalmente, quando o utente faz um cadastro e utiliza as ferramentas disponíveis no website.

A priori, o acesso à informação digital (autoprogramação) e as contra-informações que ela gera (cadastros e bancos de dados) não representam nenhum tipo de ameaça ao indivíduo - mesmo considerando a questão dos direitos da personalidade, como o direito à intimidade; tendo em vista tratar-se (a Internet) de uma caricatura da realidade, de uma virtualidade (a não ser que se vá legislar direitos da personalidade virtual, o que poderia sugerir que um dia se poderia legislar direitos da personalidade imaginária). Mas quando estas informações são trazidas à realidade, pode-se afirmar que os padrões comportamentais de ordem moral, psicológica e ética dos indivíduos poderão ser colocados ao sabor do julgamento público e aqui reside o grande perigo: o da invasão da privacidade real com base nas informações da personalidade digital da pessoa humana.

A par do que foi mencionado no parágrafo anterior - que não é o objetivo proposto -, deve-se dar uma maior atenção aos efeitos da tecnologia na vida social humana. Seriam os humanos projetados para se relacionar com as tecnologias que cria? Só pelo fato de poder transformar a natureza, para que ela se adeque às necessidades humanas, o homo sapiens sapiens (por saber que sabe) é uma espécie perigosa ao ecosistema - vez que o domina de forma racional, melhor dizer, de forma projetada, porque muitas vezes não é consciente dos efeitos de suas ações (analisando os resultados depois das conseqüências da intervenção). É senso comum e fato corrente a idéia de que as novas tecnologias são sempre empregadas nos mecanismos de controle e poder, não havendo a menor dúvida de que a Internet, já hoje, apresenta-se como perfeita arma de manipulação e dominação sociais antes vista, mudando as dinâmicas de aprendizado, relacionamento e enculturação que vigoravam até pouco tempo atrás.

Utilizemos um dos mecanismos de comunicação digital: o Skype. Por meio deste software (programa), duas pessoas podem se comunicar e se ver sem estarem no mesmo ambiente físico. É bem verdade que a comunicação entre pessoas em locais diversos já era possível através das missivas, do telégrafo, do telefone. Mas a virtualidade da presença é algo que apenas esta geração é pioneira. Isso afeta o próprio conceito de ausência, que pode se deslocar da idéia de falta real de alguém para noção de impossibilidade de comunicação imediata com uma pessoa. Além disso, diminui o esforço necessário à imaginação (ou seja, criação mental de imagens), porque traz ao contexto visual aquilo que se passa num local inacessível. Se este tipo de tecnologia estivesse acessível aos homens das cavernas, talvez eles nunca desenvolvessem a atividade de caça... porque estariam desacostumados à noção de distância ou espaços externos/exteriores - quem sabe? O que parece ter alguma coerência é a idéia de que não se conhece, ainda, quais são os efeitos destas formas de comunicação digital na humanidade.

Pode-se afirmar que a Internet e os novos meios de comunicação de massa fazem parte dos processos de integração/mundialização/globalização da intersubjetividade humana. É ainda razoável admitir que tudo isto só é possível porque existem claros interesses econômicos na exploração dessa linguagem informática (símbolos/dígitos). Mas, a partir de certas conjecturas, esse caminho torna-se enevoado e impreciso.

O único "voto válido" é supor que toda esta tecnologia traga maior liberdade de consciência às pessoas - ainda assim, seria preciso mais educadores, o que é um paradoxo à autoprogramação que este sistema fornece. Tudo isto é sinal da ambiguidade que permeia a condição humana: a criatura quase nunca se distancia muito do criador.

segunda-feira, março 26, 2007

A nova Ciência

“The Universe is a continuum; but our knowledge of it is departmentalized. Every learned Society is a pigeonhole, every University a columbarium." (Aldous Huxley).

Faz alguma confusão imaginar o pensamento humano diluído. Pensar no conhecimento em compartimentos é negar o fato de uma universalidade do mesmo e da inabilidade do ser à atividade de pensar.

O grande responsável pelo "encaixotamento" do pensamento ocidental foi Aristóteles; quando criou as disciplinas, tutelou e escravizou o pensamento humano, numa tentativa de dar-lhe uma maior coerência. Mas aí já vão centenas de séculos, e a humanidade hoje prescinde desta esquizofrenia intelectual. Quando se observa o entrelaçamento das ciências humana e de saúde, ou de saúde e tecnológica, ou qualquer outra forma de combinação dos saberes, percebe-se que, cada vez mais, todos os ramos do conhecimento humano estão interdependentes. Quando se faz uma afirmação desta monta, protestos surgem de todos os lados; protestos positivistas, compartimentalistas, enquadracionistas, absolutistas... "Síntese!" ou "Unidade!" ou "Autonomia!" são as "palavras de ordem" e progresso que se vazem ouvir por todos os corredores das instituições de ensino, quando, na realidade, o quê se deveria buscar era o tal universalismo do saber e uma nova forma de se construírem as relações de poder social. Como assim, poder social? Ora, não se guarda segredo da íntima relação existente entre Saber e Poder, sendo desnecessário traçar as origens greco-judaico-romanas desse vínculo - pois, se os gregos criaram os fundamentos da razão humana, os romanos trabalharam a política e o Direito, cabendo aos judeus separar estes campos do pertencente à religião. Com o advento ou contínuo aprimoramento do saber, chegou-se à Ciência e ao laicismo e é isto o que interessa discutir aqui - mesmo que brevemente.


Nas universidades, ao redor do mundo, não existe tanta necessidade de profundas descobertas, mais do quê saber como calcular, administrar e prever os impactos dos saberes sobre a vida na Terra. Soluções de ordem ético-jurídico-sociológicas devem andar pari passu aos progressos bio-tecnológicos e vice-versa, porque já não se pode esconder a irresponsabilidade técnico-científica (da Bomba de Hidrogênio à separação entre Direito e Moral) que percorreu a maioria das intervenções humanas. O que se pede aos pesquisadores e acadêmicos é menos preocupação com o Poder (que se expressa através da obtenção do título acadêmico) e mais comprometimento com as conseqüências de seus trabalhos - e já, aqui, lamenta-se a crescente falta de honestidade intelectual e a prostituição dos saberes.

Emancipação do pensamento humano, já! Antes que seja tarde demais.

África: os problemas de sempre

Muito se questiona acerca dos problemas em África e possíveis soluções. Compreender aquele continente é tentar auscultar a História e tentar perceber a humanidade e a espécie humana. Saber que as populações que ali vivem têm um passado não-ocidental e, da mesma forma, não sujeito ao modelo de modernidade Europeu/Ocidental já é um grande passo para descortinar uma realidade muito além da compreensão da maioria dos não-africanos.

Levando-se em consideração as formações humanas daquela região do globo, pode-se imaginar um universo complexo de relações intersubjetivas; ali, existem divergências culturais, políticas, religiosas, tradicionais e jurídicas que destoam, em muito, dos modelos que lhe são impostos como soluções aos "problemas" que ali existem. Há, ainda, a diferença endógena das populações das grandes cidades africanas "ocidentalizadas" do litoral e os outros tipos de formação social que o Continente alberga. Existe, também, grande dificuldade de proteção ao direito fundamental de acesso à terra, devido à mobilidade geográfica dos povos que habitam aquele espaço físico, tendo-se em consideração que o nomadismo é uma prática rotineira em milhares de agrupamentos humanos e fica difícil de se prestar ajuda humanitária àqueles que passam fome. Hoje, com o avanço do capitalismo excludente em território africano, há cada vez menos espaço para essas populações nômades viverem do seu extrativismo (a questão da grande propriedade agro-industrial). Para além disso, as fronteiras estatais artificialmente criadas durante o longo imperialismo colonial europeu ora separaram, ora uniram tribos e etnias rivais que ainda hoje disputam territórios e poder sobre outros grupos humanos.


O quê alguma leitura é capaz de levantar, é que algumas das maiores dificuldades vividas pelos povos africanos foram artificialmente criadas pelo desejo de dominação europeu, podendo-se afirmar que os povos africanos, com o passar dos séculos, nunca precisaram da ajuda externa para resolver questões de rivalidade inter-tribos ou intra-tribos; tinham, desde sempre, soluções jurídicas e normas sociais da mais variada espécie, chegando a resolver a maioria dos conflitos sociais pela via informal, transcendental, sobrenatural, sem a influência daquilo que na Europa se convencionou chamar de Estado; este, criado para satisfazer o animus domini europeu, foi a peça fundamental para a administração das colônias, subvertendo as tradições locais e criando um poder artificial incompatível com a realidade e incapaz de se manter senão através da violência extrema. E as "soluções" eurocêntricas que vêm a caminho continuam díspares e em descompasso com os interesses dos humanos que ali vivem. É evidente que existem sérios desrespeitos aos direitos humanos dos povos africanos, mas tentar solucioná-los em nome dos titulares destes direitos continua a ser a pior das medidas, porque toda forma de intervenção naqueles prados significa uma nova forma de violência ilegítima e paliativa. Por exemplo, tentar implantar a democracia como regime de governo é ser incauto, para dizer o mínimo. A democracia e o governo estatal são incongruências frente aos poderes tribal, tradicional e religioso que ali exercem grande influência sobre a vida de milhões de pessoas. Mais, fórmulas jurídicas positivadas e formas de resolução de conflitos estatais são insuficientemente fracas perante as relações multiplexas que envolvem essas pessoas e são ineficazes diante das normas e soluções consuetudinárias aplicadas e reconhecidas como válidas há séculos. Ações que devem ser tomadas dizem mais respeito à diminuição dos lucros que o capitalismo financeiro especulativo internacional tiram da região: proibição de venda, fiscalização, controle e banimento de armas de fogo e munições pessoal e de destruição em massa; maior rigor com o tráfico de drogas, pedras preciosas e outras riquezas naturais africanas; desmantelamento do tráfico internacional de órgãos humanos, investigando, julgando e condenando os responsáveis por esta atividade abominável (europeus, norte-americanos, em sua maioria); e tantas outras.

A comunidade internacional deve perceber, primeiro de tudo, que os povos africanos foram vítimas históricas da globalização européia, desde os "descobrimentos" portugueses, para depois reconhecer que os danos causados pelas ações já postas em prática para "salvar a África" - salvá-la da guerra, da fome, dos regimes ditatoriais e etc. - só podem ser superados por uma mais flexível não-intervenção, porque em pleno século XXI é inadmissível imaginar que eles são incapazes (jurídico/antropológico) de resolver as suas próprias mazelas. Enquanto houver uma mão européia a tentar guiar a África, ela sempre viverá os seus problemas de sempre.