terça-feira, abril 08, 2008

"Nem tudo o que reluz é verde" - Por Boaventura de Sousa Santos

(Publicado na Visão em 25 de Outubro de 2007)

"A questão ambiental entrou finalmente no discurso público e na agenda política, o que não deixa de causar alguma surpresa aos activistas dos movimentos ecológicos, sobretudo àqueles que militam há mais tempo e se habituaram a ser apodados de utópicos e inimigos do desenvolvimento. A surpresa é tanto maior se se tiver em conta que o fenómeno não parece estar relacionado com uma intensificação extraordinária da militância ecológica. Quais, pois, as razões?

"Ao longo das últimas quatro décadas, os movimentos ecológicos foram ganhando credibilidade à medida que a investigação científica foi demonstrando que muitos dos argumentos por eles invocados se traduziam em factos indesmentíveis – a perda da biodiversidade, as chuvas ácidas, o aquecimento global, as mudanças climáticas, a escassez de água, etc. – que, a prazo, poriam em causa a sustentabilidade da vida na terra. Com isto, ampliaram-se os estratos sociais sensíveis à questão ambiental e a classe política mais esclarecida ou mais oportunista (ainda que por vezes disfarçada de sociedade civil, como é o caso de Al Gore) não perdeu a oportunidade para encontrar nessa questão um novo campo de actuação e de legitimação.

"Assim se explica o importante relatório sobre a "conta climática" de um economista nada radical, Nicholas Stern, encomendado por um político em declínio, Tony Blair. Neste processo foram "esquecidos" muitos dos argumentos dos ambientalistas, nomeadamente aqueles que punham em causa o modelo de desenvolvimento capitalista dominante. Este "esquecimento" foi fundamental para a segunda razão do actual boom ambiental: a emergência do ecologismo empresarial, das indústrias da ecologia (não necessariamente ecológicas) e, acima de tudo, dos agrocombustíveis cujos promotores preferem designar, et pour cause, como biocombustíveis.

"As reservas que os movimentos sociais (ambientalistas e outros) levantam a este último fenómeno merecem reflexão tanto mais que, tal como aconteceu antes, é bem provável que só daqui a muitos anos (tarde demais?) sejam aceites pela classe política e opinião pública. A primeira pode formular-se como uma pergunta: é de esperar que as indústrias da ecologia resolvam o problema ambiental quando é certo que a sustentabilidade económica delas depende da permanente ameaça à sustentabilidade da vida na terra?

"A eficiência ambiental dos agrocombustíveis é uma questão em aberto que, aliás, se agravará com a "segunda geração de agrocombustíveis" que, entre outras coisas, inclui a introdução de plantas (árvores) geneticamente modificadas. Por outro lado, a produção dos agrocombustíveis (cana do açúcar, soja e palma asiática) usa fertilizantes, polui os cursos de água e é já hoje uma das causas da desflorestação, da subida do preço da terra e da emergência de uma nova economia de plantação, neo-colonial e global.

"A segunda reserva está relacionada com a anterior e diz respeito ao impacto da expansão dos agrocombustíveis na produção de alimentos. No início de Setembro, o bushel de trigo (cerca de 36 litros) atingiu o preço record de 8 dólares na bolsa de mercadorias de Chicago. Más colheitas (derivadas das mudanças climáticas), o aumento da procura pela China e a Índia e a produção de agrocombustíveis foram as razões do aumento e a expectativa é de que a subida continue.

"O aumento do preço dos alimentos vai afectar desproporcionalmente populações empobrecidas dos países do Sul, pois gastam mais de 80% dos seus parcos rendimentos na alimentação. Ao decidir atribuir 7,3 biliões de dólares em subsídios para a produção de agrocombustíveis, os EUA produziram de imediato um aumento (que chegou a 400%) do preço do alimento básico dos Mexicanos, a tortilla. Reside aqui a terceira reserva: os agrocombustíveis podem vir a contribuir para a desigualdade entre países ricos e países pobres. Enquanto na UE a opção pelos agrocombustíveis corresponde, em parte, a preocupações ambientais, nos EUA a preocupação é com a diminuição da dependência do petróleo. Em qualquer dos casos, estamos perante mais uma forma de proteccionismo sob a forma de subsídios à agroindustria, e, como a produção doméstica não é de nenhum modo suficiente, é, de novo, nos países do Sul que se vão buscar as fontes de energia. Se nada for feito, repetir-se-á a maldição do petróleo: a pobreza das populações em países ricos em recursos energéticos.

"O que há a fazer? Critérios exigentes de sustentabilidade global; democratização do acesso à terra e regularização da propriedade camponesa; subordinação do agrocombustível à segurança e à soberania alimentares; novas lógicas de consumo (se a eficiência do transporte ferroviário é 11 vezes superior à dos transportes rodoviários, porque não investir apenas no primeiro?); alternativas ao mito do desenvolvimento e numa nova solidariedade do Norte para com o Sul. Neste domínio, o governo equatoriano acaba de fazer a proposta mais inovadora: renunciar à exploração do petróleo numa vasta reserva ecológica se a comunidade internacional indemnizar o país em 50% da perda de rendimentos derivados dessa renúncia."

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Boaventura de Sousa Santos: Doutorado em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale (1973). Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Distinguished Legal Scholar da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. Director do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Director do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra. Director da Revista Crítica de Ciência Sociais.

terça-feira, abril 01, 2008

A Doutrina de Choque: o advento do Capitalismo de Desastre

Milton Friedman, laureado com o prêmio Nobel de Economia (1976), defendeu a idéia de que os governos devem implementar medidas econômicas duras (consideradas necessárias ao livre mercado) todas as vezes que as populações fossem submetidas a choques de qualquer natureza (desastres naturais, guerras, golpes de Estado e etc.), de forma a aproveitar o estado momentâneo de desorientação a favor das medidas de liberalização da Economia (que são majoritariamente impopulares). A isso ele deu o nome de Tratamento Econômico de Choque (TEC): foi a receita principal de dezenas de governos ao redor do mundo, servindo para implantar a ideologia neoliberal da Nova Ordem Mundial.

Essa Nova Ordem Mundial, vivamente expressa no sistema mundo de produção capitalista neoliberal, colheu resultados "positivos" na desconstrução do Estado Providência (ou Estado de Bem-Estar Social), impedindo que houvessem gastos públicos e proteção social aonde quer que fosse, ao passo que as medidas monetaristas tomadas incrementaram o funcionamento de um capitalismo omnipresente em todos os cantos do mundo. O caminho para isso: a TEC e as receitas do FMI, Banco Mundial e OCDE. Um dos exemplos mais evidentes é o caso de Sumatra; logo após o tsunami que atingiu as ilhas do Oceano Índico, milhares de pescadores perderam o acesso às terras do litoral - aonde estiveram alojados por toda sua história -, vez que as mesmas foram ocupadas pela indústria hoteleira internacional; ainda, a pesca artesanal praticada por essas populações costeiras foi sumariamente substituída pela pesca industrial e predatória, ameaçando a sobrevivência extrativista (e auto-suficiente) das populações atingidas pelo desastre.

Esse e outros exemplos do "capitalismo de desastre" podem ser colhidos no vídeo a seguir. Ele é baseado no livro de Naomi Klein, intitulado The Shock Doctrine: The rise of Disaster Capitalism. É um curta-metragem que vale a pena ver e elucida uma série de questões sobre a globalização do capitalismo - que nos é empurrado "goela abaixo" e parece ser uma força invencível (mas será?).

Desta vez, os subtítulos estão em português. :-)

segunda-feira, março 17, 2008

"Estratégia Continental" - por Boaventura de Sousa Santos

(Publicado na Visão em 13 de Março de 2008)

"Sobre a incursão do exército colombiano em território do Equador para eliminar um grupo de guerrilheiros das FARC parece estar tudo dito, tanto mais que é um caso encerrado e bem encerrado. Na verdade, assim não é. O que sobre ela se revela é tão importante quanto o que se oculta.

"Primeira ocultação: os processos políticos na América Latina estão a pôr em causa o controle territorial continental de que os EUA necessitam para garantir o livre acesso aos recursos naturais do continente. Trata-se de uma ameaça à segurança nacional dos EUA que, perante o iminente fracasso das respostas "consensualizadas" (comércio livre e concessões de bases militares), tem de ter uma resposta musculada e unilateral. Ou seja, a guerra global contra o terrorismo chega ao continente – chegou com o Plan Colômbia mas a "deriva" no Médio Oriente provocou algum atraso– e assume aqui as mesmas características que tem assumido noutros continentes: utilizar um aliado privilegiado – seja ele a Colômbia, Israel ou Paquistão – a quem ao longo dos anos se fornece ajuda militar e informação de espionagem sofisticada que o põe ao abrigo de represálias e lhe permite acções dramáticas de baixo custo e êxito certo; incitá-lo ao isolacionismo regional como preço a pagar pela aliança hegemónica. A guerra contra o terrorismo inclui acções de grande visibilidade e acções secretas. Entre estas estão os actos de espionagem e de desestabilização de que a Bolívia, a Venezuela e a tripla fronteira (Paraguai, Brasil e Argentina) são os alvos privilegiados. Na Bolívia, bolseiros norte-americanos da Fundação Fulbright são chamados à Embaixada dos EUA para dar informações sobre a presença de cubanos e venezuelanos e movimentos suspeitos dos indígenas enquanto os separatistas extremistas de Santa Cruz são treinados na selva colombiana por paramilitares.

"Facto novo: nas acções de desestabilização podem participar empresas militares e de segurança privadas, contratadas pelos EUA ao abrigo do Plan Colômbia, e dotadas de imunidade diplomática e, portanto, impunidade ante a justiça nacional.

"Segunda ocultação: a verdadeira ameaça não são as FARC. São as forças progressistas e, em especial, os movimentos indígenas e camponeses. De facto, a permanência das FARC é fundamental para manter a justificação da guerra contra o terrorismo e criar o clima de medo e a lógica belicista que bloqueiam a ascensão das forças progressistas, nomeadamente do Pólo Democrático na Colombia. Pela mesma razão, a intervenção humanitária a favor dos reféns teve de ser dinamitada para que dela não tire dividendos políticos Hugo Chávez. As forças políticas progressistas ameaçam a dominação territorial dos EUA por via de medidas que procuram fortalecer a soberania dos países sobre os recursos naturais e alterar as regras de repartição dos benefícios da sua exploração. Mas a maior ameaça provém daqueles que invocam direitos ancestrais sobre os territórios onde estão esses recursos, ou seja, dos povos indígenas. É eloquente a este respeito o relatório Tendências Globais – 2020, produzido pelo Conselho Nacional de Informação dos EUA, sobre os cenários de ameaça à segurança nacional do país. Nele se afirma que as reivindicações territoriais dos movimentos indígenas "representam um risco para a segurança regional" e são um dos "factores principais que determinarão o futuro latino-americano". "No início do século XXI, há grupos indígenas radicais na maioria dos países latino-americanos que em 2020 poderão ter crescido exponencialmente e obtido a adesão da maioria dos povos indígenas... Estes grupos poderão estabelecer relações com grupos terroristas internacionais e grupos anti-globalização...que porão em causa as políticas económicas das lideranças latino-americanas de origem europeia".

"À luz disto, não surpreende que o presidente do Peru se pergunte "se não haverá uma internacional terrorista na América Latina". Tão pouco surpreende que já hoje centenas de líderes indígenas do Peru e do Chile estejam incriminados ao abrigo de leis anti-terroristas promulgadas nestes e noutros países (por pressão dos EUA) por defenderem os seus territórios. A estratégia está, pois, delineada: transformar os movimentos indígenas na próxima geração de terroristas e, para os enfrentar, seguir as receitas indicadas no relatório: tolerância zero; reforço das despesas militares; estreitamento das relações com os EUA. A responsabilidade das forças políticas progressistas é fazer com que esta estratégia falhe."

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Boaventura de Sousa Santos: Doutorado em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale (1973). Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Distinguished Legal Scholar da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. Director do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Director do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra. Director da Revista Crítica de Ciência Sociais.

segunda-feira, março 10, 2008

"Olhe essa - O Currículo escondido de Alvaro Uribe" - Blog do Mesquita

(Artigo publicado no Blog do Mesquita, em 10/03/2008)

"Enquanto os três patetas das Caraíbas, Cháves, Uribe e Correa, brincam de brigar, os países desenvolvidos lambem os beiços de satisfação pelo cada vez mais inviável Mercosul. A América Latina, sabe-se os que estudam geopolítica, é o território que abastecerá o mundo, em um futuro próprio, de água e comida. Portando, é mais fácil negociar “con los hermanos apartados” que com um bloco sólido.

"Ao mesmo tempo, nesta rusga de rôtos, o complexo industrial militar prepara as burras para as vendas de armamentos sucateados para os abestados e seus vizinhos.

"Mas, se você pensa que o Cháves é o único satanás desta história, veja aí abaixo, de acordo com o insuspeito Maierovitch, quem é “el señor” Alvaro Uribe." (Blog do Mesquita)

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Por Wálter Maierovitch¹

"Preliminarmente, não tenho nenhuma admiração pelo Hugo Chavez, presidente da Venezuela. Não gosto de governantes populistas, boquirrotos e bizarros. Mas, reconheço que Chavez foi eleito democraticamente. No particular, sigo os seus opositores de esquerda, que não contestam a sua legitimidade.
"Uma última linha antes do perfil oculto de Álvaro Uribe Velz, presidente da Colômbia. Chavez, sem pagar direitos autorais, apropriou-se da imagem (incluída a espada que já levou para mostrar a Fidel Castro) de Simon Bolívar. Bolívar se opunha ao competente Napoleão e Chavez ao medíocre Bush.
"O curriculum vitae de Uribe não recomenda.
"No governo que o antecedeu, do conservador Andrés Pastrana, Uribe foi sempre contrário a acordos de paz com a guerrilha. Ele sempre apoiou os paramilitares, como prefeito de Medellín (mandato curto), deputado e governador de Antioquia. Em Medellín, quis implantar, oficializar, o projeto social da lavra do narcotraficante Pablo Escobar, e que rendia ao chefão do cartel de Medellín grande popularidade.
"Uribe sempre teve ligações estreitas com os riquíssimos irmãos Ochoa, narcotraficantes sócios de Escobar no Cartel de Medellín, extraditados para os EUA e que, depois de barganha, voltaram à Colômbia, com os bens e fazendas preservados. Hoje, os Ochoa são os empresários mais fortes na agroindústria e craiação de cavalos de raça.
"Na passagem pela direção do departamento de aviação civil, Uribe forneceu habilitações para pilotos de narcotraficantes. O pai de Uribe, de nome Alberto, foi assassinado pelas Farc, por ligações com os paramilitares. Alberto, papai de Uribe, teve um seu helicóptero apreendido na chamada Tranquilândia, ou seja, no parque de refino de cocaína construído e explorado por Pablo Escobar. "
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¹Wálter Fanganiello Maierovitch, 60 anos, é comentarista da CBN, colunista da revista Carta Capital e colaborador da revista italiana Narco-Mafie.
Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo e presidente e fundador do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais, é também professor de pós-graduação em direito penal e processual penal, além de professor-visitante da Universidade de Georgetown (Washington-EUA). É conselheiro da Associação Brasileira dos Constitucionalistas-Instituto Pimenta Bueno da Universidade de São Paulo (USP), ex-secretário nacional antidrogas da Presidência da República, titular da cadeira 28 da Academia Paulista de História.
jc@cbn.com.br

sexta-feira, março 07, 2008

A guerra das Drogas: a cocaína

(Com a colaboração de Jorge Vitor Marques)

Cocaína: sinônimo de destruição social e abismo humano. Sendo o "ópio da América Latina" e fazendo frente à heroína (substrato extraído da papoula asiática), esta droga se espalhou pelo globo como uma epidemia, principalmente nos EUA. Todas as vezes que se fala seu nome, uns pulam de medo e, outros, de euforia. O fato é que o pó branco andino "conquistou" o mercado de consumo de drogas norte-americano - mas isso não é uma história nova, nem curta, nem muito menos bonita (o que dificulta e coloca em risco a integridade deste post e levanta o véu de mais um tabu).

Toda cultura ou civilização tem a sua droga. Os europeus "descobriram" o álcool através da fermentação: os romanos apaixonaram-se pelo vinho; os vikings conseguiram o hidro-mel; os eslavos a wodka (da batata, da ameixa, ou da beterraba); os bretões, escoceses e irlandeses inventaram o whiskey (dos cereais), e por aí vai a lista. Os asiáticos tinham centenas delas: desde a cannabis sativa à poderosa papoula... O fato é que o uso de drogas, quaisquer que sejam, sempre cria problemas sociais; mas não podemos esquecer que o tráfico delas movimenta rios de dinheiro, e a própria Grã-Bretanha lucrou muito com o comércio do ópio asiático que viciava e matava milhares de pessoas na Europa.

Outrossim, a história da Erythroxylum coca não é recente; o uso da coca é milenar; os ameríndios já mascavam a folha da coca, aplicando-a em diversos usos, a maioria deles, medicinal. A cultura andina é tão ligada à existência e uso dos componentes naturais da planta em questão que a adaptação ao ar rarefeito do alto e acidentado terreno do oeste latino-americano não teria sido possível sem a mastigação daquela folha. Contudo, o princípio ativo só produz os efeitos da droga conhecida como cocaína quando extraído em larga escala - o que significa dizer que, no material das folhas mascadas pelos índios, só existe 0,7% do princípio ativo.

Dominic Streatfield ("Cocaine", Virgin Books, London, 2002) fez o mais extenso relato sobre a cocaína; argumenta que o comércio mundial do produto movimenta US$ 92 bilhões todos os anos - gera mais lucro que a venda de "alimentos" da cadeia McDonald's, ou mais que a venda de softwares da Microsoft (dados de 2002). E esse mesmo autor alarma que o consumo da droga está longe de diminuir. Por quê? Porque muita gente lucrou com a cocaína ao longo do século XX (e ainda lucra!); seu uso medicinal ainda se dá, por exemplo, na operação cirúrgica demoninada traqueostomia; o tráfico ilícito também é fonte de recursos financeiros que move a economia de alguns países. O problema é quando o uso do produto passa do "medicinal" ao "recreativo", criando a toxico-dependência; assim como a morfina (um subproduto extraído da papoula, como a heroína, mas usado como anestésico), a cocaína desenvolve no usuário um vício químico difícil de ser superado.

O que é interessante observar - e causa certo espanto - é que a modernidade trouxe consigo não só as máquinas da produção industrial, mas novas formas de manter o trabalhador empenhado no serviço: começa o uso da cocaína como estimulante. De Sigmund Freud ao João Ninguém, o uso da coca criou não só vítimas, mas fez movimentar uma grandiosa máquina de fazer dinheiro; veja-se o clássico exemplo da empresa norte-americana Coca-Cola, que importa folhas de coca dos países latino-americanos e produz um dos softdrinks mais "cobiçados" e lucrativos do mundo. Mas não é só.

O tráfico ilegal do entorpecente propiciou rios de dinheiros a grandes latifundiários, políticos e "empresários" latino-americanos. E o que representa isso? Primeiramente, o trabalho semi-escravo de milhares de pessoas, obrigadas ao cultivo da planta. Segundo, o envenenamento de adultos, jovens e crianças pelo consumo da droga. Terceiro, a criação de cartéis e organizações criminosas no grande Continente Americano (Norte, Centro e Sul), com a disseminação da violência e da corrupção por todos os lados. E, por fim, o continuismo de regimes autoritários que, ajudando o branqueamento de capitais (lavagem de dinheiro), garantem o conforto de poucos às expensas do sofrimento de muitos.

O que torna a situação ainda pior é que, no meio disto tudo, surge o grande Tio Sam, promotor da "justiça mundial" ou a "palmatória do mundo", espalhando a instabilidade política na América Latina. Isso requer uma profunda reflexão, sobre vários pontos. Primeiro, a quase-ocupação da Colômbia (através de uma parceria com o atual regime) não porá fim ao cultivo da planta; parece haver mais um acordo para o estabelecimento de cotas de "importação (i)legal" que os EUA estariam dispostos a admitir, tendo em vista que um dos principais produtos de exportação da economia colombiana é a coca. Segundo, os barões da coca colombiana fazem parte do governo de Uribe, como já vem sendo denunciado paulatinamente pela mídia mundial; o sistema semi-feudal colombiano continua a impulsionar a plantation da coca. Terceiro, o que algumas autoridades colombianas estão a fazer é o que todo grande capitalista deseja: eliminar a concorrência que, no caso, é as FARC. Quarto, em decorrência do que foi dito logo atrás, as FARC competem com o governo colombiano direta (lutando por autonomia política) e indiretamente (quando atrapalham os negócios sujos de pessoas ligadas ao governo colombiano).

Por fim, deve-se dizer que não há mocinhos nesta história de bang-bang americano: existe um choque entre questões axiológicas e pragmáticas que não pode ser vendido como um produto pela mídia hegemônica. O conflito interno colombiano tem sim raízes políticas; o problema é que as FARC só dispõe de uma fonte de recursos (a coca, que ainda é "compartilhada" com o Estado colombiano!). Nesse aspecto, pode-se supor que um apoio legítimo, democrático e até salutar poderia - sim - ser dado pela Venezuela e Equador: se a questão é a emancipação de uma parcela (ou de todo o povo colombiano), porque não substituir o dinheiro sujo da cocaína pelo apoio logístico dos povos vizinhos? O único problema nisso seria uma guerra declarada da Venezuela e Equador à Colômbia (e seu "amigo oculto", os EUA) - mas os povos irmãos não desejam a guerra, somente aquela velha e conhecida nação do Norte, que espalha o terror pelos quatro cantos do mundo em nome de uma tal "democracy": mas o nome da palavra é DEMOCRACIA!

Existe aqui um fato incontornável: Colômbia e EUA fazem terrorismo de Estado e as FARC fazem tráfico internacional de cocaína. E agora? Agora, é analisar quando os meios justificam os fins, quando os fins justificam os meios e quando tudo é uma questão de princípios.

terça-feira, março 04, 2008

Sistema representativo

Para reforçar o post anterior contra a monarquia parlamentarista no Brasil, segue este:




Só para lembrar: o sistema representativo, seja parlamentarista, seja presidencialista, não é o único possível na democracia. Existe a democracia direta e participativa... Mas essa ainda tarda.

O irmão do Diretor da Polícia Nacional da Colômbia é narcotraficante

A contra-informação é uma das formas de se polarizar o debate, por meio da inserção de contra-argumentação aos fatos postos pela mídia comercial/convencional. A mídia convencional ou comercial sobrevive da venda de anúncios e propaganda de grandes empresas e corporações internacionais - quando não é controlada por elas, no mercado de ações. Assim, se não há descrédito imediato às opiniões ali depositadas, deve haver, pelo menos, certa margem para a dúvida e a desconfiança.

O recente incidente entre Colômbia (agressor) e Equador (agredido) fere todos os tratados de paz e assistência mútua assinados entre os países do grande Continente Americano. A política externa norte-americana começa a centrar sua força no solo Latino Americano, desgastada que estava a Casa Branca pelas guerras do petróleo no Oriente Médio. O discurso yankee muda de tom; antes, sua intervenção na Colômbia servia para combater o narcotráfico; agora, combate o terrorismo das FARC. Ora, os EUA nunca permitirão o nascimento de outra Cuba em solo ameríndio! E toda desculpa além disso é embuste. O bombardiamento (raid) do território equatoriano não é atitude ideológica (apenas): é ação atentatória ao Direito Internacional, constituindo-se em ato de guerra e violência que somente será obliterada por muita ação diplomática, nos próximos dias.

Isso posto, passamos a reproduzir uma reportagem colocada no ar pela Agência Bolivariana de Notícias e reproduzida no site da Fundação Lauro Campos. Antes de mais nada, é bom relevar que o diálogo de idéias não deve se dar apenas pelo mote da imprensa dominante; antes de mais nada, é preciso dar o benefício da dúvida àqueles que estão dispostos a negociar.
Caracas, 3 de março. ABN - O narcotraficante Wilmer Varela, aliás “Jabón”, tem laços de consangüinidade e de negócio com o diretor da Polícia Nacional da Colômbia general Oscar Naranjo Trujillo, informou nesta segunda-feira o ministro do Poder Popular para as Relações Interiores e Justiça Ramón Rodríguez Chacín.

O titular do Despacho do Interior e Justiça venezuelano saiu ao passo das declarações do diretor da Polícia Nacional da Colômbia, o qual o relacionou com membros das Fuerças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), a raiz de documentos encontrados num computador do supostamente deposto segundo líder da guerrilha, aliás “Raúl Reyes”.

O funcionário venezuelano deu a conhecer que o capo Wilmer Varela foi assassinado em Mérida, estado venezuelano, no passado 29 de janeiro de 2008, presumidamente por sicários relacionados com o alto funcionário do Governo da Colômbia.

Indicou ademais que o narcotraficante assassinado, com quem se relaciona o diretor da polícia colombiana, estava solicitado pelo DEA e era sinalizado por enviar aos Estados Unidos 70% da cocaína que ingressa em dito país.

Nesse sentido, informou que num computador que se encontra em mãos do Governo venezuelano, se evidencia que por temor a que "Jabón" fosse capturado pelos corpos policiais venezuelanos e oferecesse informação que envolveria o alto governo colombiano, foi mandado assassiná-lo.

"Este computador registra que pagaram suborno ao ministro da Defesa colombiano Juan Manuel Santos, para que este general Naranjo ocupasse um comando no alto Governo da Colômbia”, apontou Rodríguez Chacín. Igualmente, o ministro do Interior e Justicia assinalou ademais que o narcotraficante colombiano preso en Colônia Alemania, Juan David Naranjo Trujillo, é irmão do diretor da Polícia Nacional colombiana, o qual resultou ser um dos seus sus enlaces e sequazes na nação vizinha.

Detalhou que Juan David Naranjo Trujillo se encontra privado da liberdade desde 27 de março de 2007, ao ser surpreendido com 25 quilogramas de cocaína.

Rodríguez Chacín denunciou que el Governo colombiano está utilizando uma manobra fascista de misturar verdades com mentiras para confundir a comunidade internacional.

"Quanta desfaçatez para dizer que Rodrigo Granda foi capturado na Colômbia, quando foi mentira?”, expressou o funcionário venezuelano. Indicou que se trata de una manobra santanderista, de enganar, mentir y difamar, tomando meias verdades e muitas mentiras. “Santander lá e Páez aquí” expressou o ministro.

Do mesmo modo, destacou que “falam de uma relação com minha pessoa e o comandante Iván Márquez quando isso é um fato público e comunicado pelas relações necessárias para processos de libertação” disse. Detalhou que dita relação a teve durante a visita do líder guerrilheiro à cidade de Caracas, no marco das gestões para um acordo humanitário.

Reiterou que a invasão de tropas colombianas em território equatoriano é uma realidade tangível e corresponde a uma violação flagrante do direito internacional.

“Essa é a verdade, aqui há um fato real ineludível de violação da soberania de um país irmão. Ante essa situação, tratam de enganar e por isso aduzem a um computador que os fascistas colombianos e norte-americanos manejam a seu antojo para validar qualquer mentira”, expressou o titular do Interior e Justicia. Precisou que se trata de uma doutrina de guerra preventiva fascista, utilizada por EEUU e Israel.

Entre outros temas, o ministro considerou vergonhoso que na localidade de San José del Guaviare, na Colômbia, tropas norte-americanas observassem com desprezo a ação humanitária que a Venezuela levava a cabo em prol da liberação de retidos pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Igualmente destacou: “Não é a primeira vez que eu o vejo. Ademais, em tropas especiais da Colômbia, havía um oficial colombiano à frente, mas eles esperavam a ordem das tropas norte-americanas para atuar”.